Tal como os feriados que já não o são, também eu, entusiasta do Porto, da minha cidade, a abandonei para enfrentar o sul. Abandonei a condição que orgulhosamente exibia como aí sendo 'nascida e criada' e, segundo esta perspectiva, também eu deixei de o ser (assim como o feriado).
Faz hoje pouco mais de uma semana que cheguei. Deixei para trás os tons cinza do céu e dos granitos da minha cidade para me deparar com a cor intensa de edifícios (que apenas se pintam onde a tinta faz verdadeiramente falta).
Aqui sinto-me num constante processo de depuração, não no sentido da purificação do 'espírito', mas da simplificação da forma, do formato, do estilo de vida. A cada dia que passa me adapto mais e mais a este território insular. A minha vivência por aqui faz-me repensar tudo, as questões mais básicas da vida; a forma como a nossa condição vulgarmente nos leva a depender de tanto quando precisamos de tão pouco, e não para sobreviver mas para sermos felizes.
O sol brilha todos os dias. Mas também chove, faz vento, e nuvens, quase todos os dias.
Trabalha-se muito também. Hoje, um professor dizia-me que Cabo Verde é aquele constante estado 'inacabado' (não utilizou esta expressão, mas penso que resume muito bem o teor da conversa). Contou-me que há umas décadas, ao visitar um amigo nos Açores lhe dizia que seria incapaz de lá viver, porque estava tudo arrumado e limpo, num estado finalizado. Disse-me ainda que era isso mesmo o tirava bem cedo da cama todas as manhãs, com vontade resolver coisas.
Os dias aqui no Sul são longos. Começam a horas que não me lembro (por norma) de acordar em Portugal. Mas também escurece cedo.
18.30 é noite em São Vicente. Por essa hora gosto de trocar as sabrinas pelas sapatilhas e de ir correr à Marina do Mindelo. Até à noite o vento é quente.
Nessa hora do dia sinto que, apesar de todos os sacrifícios que faço ao deixar tanta coisa boa para trás, sou uma privilegiada, ao ver a noite cair quando, nas minhas corridas pela marginal, dou de caras com a praia da Lajinha ainda com a luz no horizonte.

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